segunda-feira, 8 de novembro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

PRINCÍPIO

A convicção de que a verdade é o próprio pensamento se aproxima. A idéia de que inexiste separação entre pensamento e ação está se tornando cada vez mais clara. Sempre faço aquilo que penso. Imaginar o contrário é aceitar a dualidade do ser, é aceitar que somos todos hipócritas, restando-nos apenas a resignação. Um dia, há muito tempo, decidi que não seria hipócrita. E, recentemente, também decidi que não me tornaria um resignado.

No pensamento é que está o espelho da ação. É um espelho anterior, algo como uma projeção. Serei sábio se souber enxergar isso e, de acordo com o que sonho e desejo para minha vida, realizar as reformulações necessárias, alterando minha forma de pensar. Isso! Em minha mente é que moram os preconceitos, os medos e as mentiras. E é nela que posso promover essa transformação, esse encontro com o que imagino ser o pensamento primeiro, um princípio de mim mesmo, que me diz: você busca a verdade; você será íntegro.

Sei que para algumas pessoas isso não interessa. Mas para mim é diferente. Talvez faça parte da maior questão que já enfrentei. Aliás, talvez todas as outras que se me apresentaram até aqui nada mais fossem do que tentáculos desse corpo maior, que é a necessidade de construir a vida inteira de acordo com meu princípio.

A verdade é o próprio pensamento...

domingo, 5 de setembro de 2010

terça-feira, 31 de agosto de 2010

E HOJE É DIA DE SOFIA!



"Ah, pai, é o terceiro feliz aniversário que você me dá hoje!"

Te amo, minha filha!
Feliz aniversário pra sempre!

domingo, 22 de agosto de 2010

A CURA

Minhas lágrimas mudaram.
Saiu do peito o lamento contido.
Hoje chorei feito um menino,
ao me lembrar de você.

Existia amor escondido na voz grave.
Só que dele você soube muito tarde,
quando viu em minha mesa sua fotografia,
encontrando apenas parte do que havia:

Não pude lhe mostrar minha coragem!
Não pude sarar nossa tristeza!
Por isso levei no peito a culpa.
Por isso briguei comigo, e perdi a luta.

Porém hoje, ao me libertar assim,
com o amor crescendo dentro de mim,
posso dizer com convicação e verdade:
Estamos curados, minha mãe!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

sábado, 31 de julho de 2010

EXPLOSÕES E PAISAGENS

Dia desses à noite vi João Cabral de Melo Neto na TV. Estava aqui com o Menphis quando começou um documentário sobre o poeta. Resolvi assistir.

Meu contato com João Cabral é quase nenhum. Uma ou outra poesia nos livros de literatura do segundo grau. Morte e Vida Severina para o vestibular. Funeral de um Lavrador com Chico Buarque...

Mas sempre ouvi falar de sua qualidade, de sua precisão poética. Há quem diga tratar-se do maior bardo brasileiro.

Sei que o tempo do estado poético se aproxima. E nele irei travar conhecimento com muitos poetas, dentre eles o João Cabral, sem dúvida.

Os sinais desse tempo são tão claros quanto uma explosão de estrelas. E justamente este termo, explosão, foi o que me chamou atenção no documentário.

João Cabral concebe a poesia como um trabalho muito sério, um esforço para domar as explosões de sentimento que acometem o ser humano.

Compreendi na hora o que ele dizia. Domar explosões... O mundo se mostra bruto, sensações selvagens podem nos liquidar. É assim na poesia, é assim na vida. O trabalho, seja ele qual for, se realizado com sinceridade, esforço e comedimento, faz do homem um vencedor, um ser que pode "ousar ser", transformar-se e criar sua própria história, sua própria arte.

Não assisti a todo o documentário. Parei e retornei aos estudos depois que João Cabral de Melo Neto, perguntado sobre suas viagens de diplomata, respondeu: eu não estava interessado em paisagens, mas sim em concluir minha obra.

FAMÍLIA QUE SE FORMA

A felicidade passa por aqui...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

EM 2010

Pois então, o segundo semestre está aí. E a expectativa é de grandes acontecimentos até o final do ano. A medida que os resultados surgirem, vou informando por aqui. Por enquanto, é tempo de concentração. E de fé. Muita fé. Dedico-me à luta. Sou um guerreiro.

As fotos abaixo são da formatura do irmão do meu amor. Nós nos divertimos muito. Uma noite perfeita: muitos beijos, abraços, doces e sorrisos... É bom sentir que tudo começa a fazer sentido.

terça-feira, 22 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

SOBRE MEU PRÓXIMO LIVRO

O cuidado de si é:
(a) uma atitude, com relação a si, com relação aos outros, com relação ao mundo;
(b) uma forma de atenção, de olhar para o “interior”, uma observação sobre o que se pensa;
(c) não é só uma atenção voltada para si, é também uma série de ações, pelas quais se purifica, se modifica, através das quais a gente se transforma e transfigura.
(por Fábio Belo)

Outro dia, voltando pra casa, dentro do ônibus, ouvi algo que não me sai da cabeça: "Esse livro mudou minha vida".

Se tudo correr como imagino, em setembro leio um livro do Michel Foucalt.

domingo, 6 de junho de 2010

CONSTATAÇÃO

Já ouvi muitas pessoas afirmarem: "Sou intenso!" Na verdade, deveriam dizer: "Sou desperdiçado!" Há muitos que confundem desperdício com intensidade.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O INDIZÍVEL

Outro dia recebi no e-mail um texto meu escrito há 3 anos. Eu falava que havia aprendido a dançar, a viver de forma intensa, a vencer todo o medo, a amar.

Tive o impulso de responder, dizendo que as coisas mudaram e tal. Mas não o fiz. E ontem descobri por quê.

A verdade é que palavras são como sonhos. E os sonhos, quando são muito fortes, um dia se concretizam. E quando viram realidade, deixam de ser literatura. Tornam-se vida!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

DISSERTAÇÕES - TEXTO II

O interesse dos jovens brasileiros pelo processo político é pequeno. Pesquisas demonstram que aqueles que possuem idade entre dezesseis e dezessete anos, faixa etária na qual o voto é facultativo, têm optado pelo não alistamento eleitoral. Esse desinteresse está relacionado, na realidade, à pífia conscientização política de toda a sociedade.

O exercício do voto é intrínseco à cidadania. O conceito de cidadão envolve, dentre outros, participação no estabelecimento dos rumos de um país. No Brasil, o exercício dessa prerrogativa é bastante tímido, não obstante sua classificação como fundamento da República Federativa do Brasil, feita pela Constituição Federal de 1988. Parte da população desconhece, ou parece não entender, que é por intermédio da ação de cada um que o país poderá evoluir, propiciando melhores condições de vida a todos.

Nesse contexto está a explicação para o desinteresse dos jovens. Trata-se de um reflexo do que ocorre no país. A questão política, para boa parte das pessoas, não é prioridade. Preocupam-se muito mais com assuntos ligados à profissão, emprego, saúde, esquecendo-se da influência decisiva da política sobre tais aspectos.

É preciso alterar essa realidade. Todos temos de entender que associada à nossa participação, ao nosso voto, ao nosso comportamento, está nosso próprio futuro. Para que a mudança ocorra, além de ações relativas à conscientização política, é necessário que governo e sociedade envidem esforços para que no início do processo de educação, principalmente no ensino de nível fundamental, a noção de cidadania seja consolidada. Dessa forma, os jovens do futuro poderão representar a postura de uma nova sociedade.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

REFORMULAÇÃO

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

(William Blake)

O caminho da sabedoria leva ao palácio do comedimento.

(Moisés)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

DISSERTAÇÕES - TEXTO I

O bullying, forma de discriminação, às vezes violenta, praticada principalmente em escolas e sítios de relacionamentos da internet, configura-se num grave problema, diante do qual medidas devem ser adotadas. Xingamentos, atos de desprezo e agressões físicas reiteradas representam algumas das ações relacionadas ao bullying. É preciso que todos, pais, educadores, estejam conscientes dos prejuízos, decorrentes da violência física ou psicológica, provocados nas vítimas de tais atos.

A prática do bullying é antiga. Muitas pessoas, se questionadas sobre o assunto, provavelmente recordarão atos de humilhação ou discriminação que presenciaram, ou até mesmo sofreram, durante o período escolar. Jovens e adolescentes, por possuírem, por exemplo, constituição física mais frágil, tornam-se reféns de pessoas que, imbuídas de sentimentos como raiva e desprezo, os hostilizam ou machucam.

Apesar de existir há bastante tempo, a verdade é que, somente nos últimos anos, a sociedade passou a se preocupar com o problema. Essa preocupação está fortemente ligada à exposição, em blogues ou sítios de relacionamento da internet, dos traumas e prejuízos provocados pelo bullying. Ademais, com a expansão da conexão virtual, tornaram-se comuns situações em que pessoas, por não se enquadrarem em certos padrões de beleza, de comportamento, de crença, são agredidas "virtualmente" por outras que se julgam melhores ou superiores.

Para que o bullying seja coibido, é preciso que a sociedade comece a agir. Família e escola devem ensinar aos jovens e adolescentes a comprender e respeitar diferenças entre as pessoas. Aos pais, em especial, é recomendado diálogo com os filhos, a fim de orientá-los quando forem vítimas ou presenciarem ações dessa natureza. Por fim, caso o bullying implique, por exemplo, em atos de racismo ou homofobia, será preciso punir, de forma exemplar, os responsáveis.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

REGISTRO



O comedimento é a chave.
É preciso ser obstinado, jamais explosivo.
Como um ourives, uma aranha a fabricar seu fio.

domingo, 16 de maio de 2010

VAMOS?

E daqui a pouco é segunda-feira. Este domingo foi de "24h". Passei boa parte do dia em frente ao micro, assistindo a episódios da 1ª temporada. Comprei a 1ª e a 2ª.

Ah, encontrei um sujeito muito bacana. O nome dele é Mark Knopfler. É mais conhecido por seu trabalho na falecida banda Dire Straits, a qual liderou de 1978 a 1993.

Lembro dessa banda. E lembro que o som era bem agradável. Mas a verdade é que nunca prestei atenção. E nem tenho interesse de fazê-lo agora. No entanto, quanto à carreira solo do Mark Knopfler...

Prestem atenção neste som...Pra escutar no carro. Ou seria num avião?


sábado, 15 de maio de 2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O PADRE DA LUZ VERMELHA

Na última conversa com padre Nereu, Juju ficou chocada com o que ouviu. Senhora sisuda, casada, funcionária pública, síndica de condomínio, católica praticante, suas decisões tinham de passar pelo crivo da igreja. Esforçava-se por manter tudo em ordem, estivesse no trabalho ou no prédio - localizado num bairro de classe média alta, zona sul de Belo Horizonte, onde vive com o marido há mais de trinta anos.

Com a chegada de três novas moradoras, que assinaram contrato com o dono do apartamento (um senhor bastante rico e respeitado por todos no bairro), a rotina do lugar sofreu sérias alterações.

O barulho nas madrugadas aumentou. Sapatos de salto alto, com seus "toque" "toque" "toque", e ruídos que lembravam grunhidos de animais perturbavam o sono de muita gente. A filha adolescente de uma vizinha afirmou ter visto um homem pelado no quarto das moças. Sem contar que o movimento de táxis, depois das vinte três horas, aumentara bastante por ali.

Com o agravamento da situação, Juju teve de tomar providências. Resolveu dar início a uma investigação
. Foi ao apartamento das novas inquilinas. Atendida pela Renata, moça muito simpática, conversada e educada, foi convidada a entrar. Juju explicou que precisava do telefone de todos, para o caso de alguma emergência. Registou o número da menina, bem como de suas amigas, num caderno de notas. Soube que estudavam numa faculdade particular. E que eram amigas íntimas do locador.

Na casa do sogro de Juju, havia uma pilha de jornais. Para confirmar o número de Renata numa das seções do periódico, catou algumas páginas e levou-as para casa. Depois de quase uma semana de trabalho, quando o marido já reclamava da falta de assistência, Juju vibrou excitada ao reconhecer o número que anotara no caderno: Para você que não abre mão de uma acompanhante discreta, bonita e charmosa, estudante universitária, disposta a realizar seus desejos mais secretos, ligue para mim. Sigilo absoluto em local próprio, num dos bairros mais nobres da cidade.

A missão estava cumprida. Juju agora tinha elementos para agir. Antes, porém, seria preciso ir ao Padre Nereu. Há vinte anos que o conhecia, confiava em seus conselhos, apesar de achá-los às vezes incomuns. Mas sempre que os seguia, o resultado era ótimo. E por que haveria de ser diferente agora?

Revoltada com o que ouviu do padre, Juju decidiu agir por conta própria. Procurou o locador das meninas. Contou tudo que descobrira e afirmou, fundamentada no Estatuto do Condomínio, que tais posturas são proibidas. O homem bem que tentou defender as moças, contudo ao ser desafiado a ligar para uma delas, e depois de pensar nos riscos de ser descoberto, cedeu aos argumentos de Juju. Pediu apenas que aguardasse quinze dias para que o imóvel fosse desocupado.

Passados nove meses, no batizado da filha de uma vizinha, cujo pai era desconhecido, Juju se surpreendeu ao perceber o padre Nereu na cerimônia. Foi inevitável lembrar: é, minha filha, o jeito é pedir pras meninas, pelo menos, colocarem uma luz vermelha na porta.

terça-feira, 11 de maio de 2010

VIDA NA CAPITAL

Belo Horizonte é enorme. Trânsito tumultuado, engarrafamentos, buzinas, protesto de grevistas. Notícias de estupro e prováveis enchentes no período chuvoso. Traficantes anunciam toque de recolher em alguns bairros. Pastor ensandecido faz pregações no centro da cidade. Pessoas caminham com pressa, são quase todas desconhecidas. Sirenes, apitos, gritos, muita gente!

E a verdade é que me sinto confortável aqui. Tudo que mencionei acima compõe um quadro que me revela, traz à luz sentimentos novos, como no início de uma vida.

Quase em silêncio, faço meus projetos. Tenho a convicção de que posso conseguir tudo que desejo. E o que desejo toma forma na medida em que me afasto dos sonhos vazios. Lembro-me de quando quis a fama, a arma de fogo na cintura, os óculos ray ban na madrugada... Hoje meu plano é bem singelo: viver de forma honesta. Este meu maior objetivo.

E Belo Horizonte, com essa multidão, com esse barulho, com essa coisa louca de metrópole é minha aliada. Com humildade, observo e aprendo com o que vejo, envolvo-me, torno-me parte viva deste lugar.

sábado, 8 de maio de 2010

RESPONSABILIDADE

O homem, por decidir o que faz, é responsável, diante de si e dos outros, por suas escolhas. Frente ao mundo que o envolve, sua responsabilidade é evidente. Consciente ou não desse fato, o homem sempre responde por suas ações. Já perante o próprio ser, tal compromisso é difícil de enxergar. Para tomar a vida nas mãos, é necessário muito esforço, é preciso vencer a vontade de fuga que lhe ocorre. Assumir essa batalha é decidir pelo risco de se revelar, de se abrir ao coração.

Decisões sábias aquietam o espírito. E é sábio ousar em vez de se esconder. É sábio reconhecer no lugar de negar. O coração fornece sinais, diz como se deve agir. Porque ele quer vida, jamais morte! É como se houvesse um medidor de verdades dentro do peito. E é preciso escutá-lo com atenção. Quando estiver em paz, é porque existe luta. Quando estiver angustiado, é porque se iniciou a fuga. E a partir disso surge o impasse: persistir ou entregar-se?

É nessa hora que muitas vezes o corpo vacila. Utilizando-se dos mais diversos argumentos para anestesiar sua angústia (cansaço - e é preciso dormir horas e mais horas; excitação - e é preciso se satisfazer de qualquer forma; dúvida - e é preciso desconfiar de tudo e de todos; medo - e é preciso se proteger até mesmo de uma criança), o corpo tende a frear qualquer esforço. A impressão é de que o autoreconhecimento provoca pane nos sentidos. Mas é preciso vencer essa tendência. É preciso conquistar a vontade.

A cada vitória, fortalecimento. Os passos tornam-se firmes. A visão, mais apurada. O coração se aquieta... Saber é responder por si mesmo. Responder por si mesmo é cuidar da própria vida.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

O LUTADOR

Há muitos anos, assisti ao filme 9 1/2 Semanas de Amor. Não me lembro bem dele. Ficou apenas a imagem do casal protagonista: Kim Basinger e Mickey Rourke. O filme foi um sucesso. E me recordo de minhas primas mais velhas suspirarem pelo Mickey Rourke. Conheço pouco a história deste ator, sei que foi considerado um dos homens mais atraentes do cinema. E também sei que durante alguns anos largou as telas para se dedicar ao Boxe. Mas parece que esse período não foi dos melhores em sua vida: apanhou bastante, não se sagrou campeão e teve de voltar ao cinema. E desde então tem trabalhado em filmes muito ruins, em evidente decadência. Com O Lutador, a situação parece mudar. Além de o filme ser daqueles que batem forte na gente, a atuação do Mickey Rourke é surpreendente, numa junção adequada de força com resignação, dando vida a um homem encurralado por suas próprias decisões.

O Lutador, filme dirigido por Darren Aronofsky, não é espetáculo, não tem glamour ou pieguice, não é para entreter comedores de pipoca e afins. É, sobretudo, um choque, um susto que traz reflexões. Vem à nossa cabeça, muitas vezes alérgica ao autoquestionamento, a idéia de que as relações, com o mundo, com as pessoas, e com nós mesmos, podem não representar aquilo que gostaríamos. Entre nossa vontade e nosso desejo, entre nosso querer e nosso poder, podem existir pontes deterioradas, cuja travessia é dificílima. Nesses casos, condenação a algum tipo de realização solitária, onde dor física ou destruição espiritual tornam-se comezinhas, é algo que se impõe, praticamente inevitável, num suicídio silencioso.

Randy "Carneiro" Robinson é um veterano da luta-livre que, após as glórias do passado, dedica-se aos ringues como uma caricatura de si mesmo, no intuito de entreter o público e ganhar algum dinheiro, refugiando-se de outra batalha, menos sangrenta e nem por isso menos dolorosa, contra a pessoa egoísta e vazia que é. Sua situação é precária: está proibido de entrar em casa, por conta do aluguel não pago; tem de dormir dentro do carro; o único lugar que frequenta é uma boate de striptease, onde estabelece um fiapo de relação com uma dançarina, interpretada por Marisa Tomei.

Já que a quantia que recebe mal dá para se sustentar, decide trabalhar também como carregador num supermercado, ao passo que participa de duelos cada vez mais radicais e penosos, com arames farpados e grampeadores usados na própria carne. Tudo isso para delírio dos espectadores sedentos de show.

Mas não pensem que o filme incute compaixão pelo personagem. Não, a abordagem é muito mais ampla. De fato, trata-se de um homem decadente. Porém, as derrotas são conseqüências de seu jeito de ser. Há um momento na história em que ele até parece reagir. É quando, ao se recuperar de um infarto, procura a dançarina e revela o quanto se sente solitário e desamparado. A mulher, numa demonstração de afeto, sugere que ele procure a filha. Mas não, a tentativa fracassa. O egoísmo e falta de jeito falam mais forte. A vontade de viver não dura muito. Mesmo enfartado, volta a lutar. Ele sabia que ali, naquela arena iluminada e sangrenta, a dor não lhe machucava.

Na última luta do filme, Randy declara seu amor ao público. Deixa claro que as pessoas ali formavam a sua família, e que ele as amava. O boneco sente-se bem diante das crianças que o aplaudem. Um tipo de vida que se alimenta de uma ilusão. E a tristeza de ser entretenimento, de não estar no controle quando o show termina, sob a pífia anestesia dos gritos de: “Golpe final do Carneiro! Golpe final do Carneiro!”, não lhe representa nada. Sim, é verdade, sua expressão facial é de dor e extremo esforço. Porém seus passos quase não vacilam. Não existe arrependimento. Por um instante, olha a janela onde estava a dançarina que, minutos antes, lhe oferecera carinho, ao pedir que não lutasse. Mas a ponte é impossível nesse momento. Resta-lhe aquilo, apenas aquilo.

Poucos dias antes, quando começa a se reconciliar com a filha, de quem estivera afastado por muitos anos, "Carneiro" nos prova que jamais deixará de ser quem é. Saem juntos, vão a Coney Island, combinam de se encontrar no sábado à noite. Ele havia decidido trabalhar somente no supermercado e se aposentar dos ringues. Insiste nisso por dois ou três dias, até que resolve quebrar tudo. Vai ao encontro de amigos lutadores e começa a beber. Encontra uma garota, se droga, faz sexo no banheiro. Muitas horas depois, lembra-se do encontro com a filha. Tarde demais.

Mickey Rourke concede a própria carne ao personagem. É impressionante o tamanho da dor que carrega na face e como seus trejeitos se encaixam à densidade da história. O filme cria a personagem e o ator transforma-o em algo vivo, muito próximo de todos nós. Mickey Rouke injeta no "Carneiro" muito do que o ser humano leva dentro de si quando chega ao momento da vida em que as fugas, mesmo as mais destrutivas, misturam-se ao próprio ser. O galã de minhas primas mais velhas, depois de surrado por longos anos no seu próprio ringue, parece ter voltado para nos dizer: sou um ator monumental! Capaz de vencer o maior dos desafios: lutar pela vida!

sexta-feira, 26 de março de 2010

NO CAMINHO

Quando a rua Olinda me joga na Avenida Amazonas percebo se o trânsito está ou não naqueles dias horríveis. Nesta terça-feira não foi diferente. Até onde meus olhos alcançavam, tudo estava emperrado. O dia se impunha diante de motoristas, passageiros e pedestres. E eu estava a caminho do trabalho, depois de ter acordado um pouco tarde.

Mas não cheguei a me incomodar. Apurei a vista, concentrei-me, e continuei a ler o Zaratustra, livro que me acompanha. Lia sobre a amizade; amor ao próximo; isolamento; busca de si mesmo.

Passados alguns minutos, logo no primeiro ponto do ônibus, um homem de estatura mediana, trajando uma surrada calça jeans e uma camiseta com a imagem de uma santa, aparentando ter quarenta e cinco anos, depois de passar pela catraca do cobrador, levantou a voz: Amigos, estou aqui para compartilhar algo com vocês, sobre minha vida, estou desempregado, tenho duas filhas, e preciso de uma contribuição, qualquer valor que seja: dez centavos, cinqüenta, um real; aqui estão papéis que provam que já trabalhei com carteira assinada, que estou sem renda agora, e que sofro de uma grave doença: epilepsia.

As palavras do homem prejudicaram minha leitura. Mergulhei nos mais diversos pensamentos.

Tenho renda, não tenho epilepsia, não tenho duas filhas - apenas uma, que não mora comigo. No entanto, algo bateu forte na minha cabeça. Foi quando ele disse que estava ali porque não tinha saída. A imagem do túnel e sua meia-luz, da ponte da qual não se pode voltar, são fogos de artifício que estalam em minha mente. Há situações que exigem uma única escolha, nas quais existe uma única possibilidade, ou fazemos o que é necessário ou morremos por conta da inércia. Conforme parecia, este era o caso daquele homem supostamente epilético.

Para que ele não visse meus olhos, e tampouco me cobrasse dinheiro, mantive-os pregados no Zaratustra. O homem passou do meu lado e foi ao fundo do ônibus, enquanto ouvíamos moedas pingarem nas suas mãos.

Depois que ele desceu, fiquei a imaginar se tudo não seria uma grande mentira...De todo jeito, o barulho das moedas e o trânsito intenso da Avenida são incontestáveis.

quinta-feira, 25 de março de 2010

ENFIM


É. Vou adiante...

Alguns meses depois.

Vou escrever. As peças (do quebra-cabeça) se juntam. Assim será melhor.


JIGSAW FALLING INTO PLACE