segunda-feira, 29 de março de 2010

O LUTADOR

Há muitos anos, assisti ao filme 9 1/2 Semanas de Amor. Não me lembro bem dele. Ficou apenas a imagem do casal protagonista: Kim Basinger e Mickey Rourke. O filme foi um sucesso. E me recordo de minhas primas mais velhas suspirarem pelo Mickey Rourke. Conheço pouco a história deste ator, sei que foi considerado um dos homens mais atraentes do cinema. E também sei que durante alguns anos largou as telas para se dedicar ao Boxe. Mas parece que esse período não foi dos melhores em sua vida: apanhou bastante, não se sagrou campeão e teve de voltar ao cinema. E desde então tem trabalhado em filmes muito ruins, em evidente decadência. Com O Lutador, a situação parece mudar. Além de o filme ser daqueles que batem forte na gente, a atuação do Mickey Rourke é surpreendente, numa junção adequada de força com resignação, dando vida a um homem encurralado por suas próprias decisões.

O Lutador, filme dirigido por Darren Aronofsky, não é espetáculo, não tem glamour ou pieguice, não é para entreter comedores de pipoca e afins. É, sobretudo, um choque, um susto que traz reflexões. Vem à nossa cabeça, muitas vezes alérgica ao autoquestionamento, a idéia de que as relações, com o mundo, com as pessoas, e com nós mesmos, podem não representar aquilo que gostaríamos. Entre nossa vontade e nosso desejo, entre nosso querer e nosso poder, podem existir pontes deterioradas, cuja travessia é dificílima. Nesses casos, condenação a algum tipo de realização solitária, onde dor física ou destruição espiritual tornam-se comezinhas, é algo que se impõe, praticamente inevitável, num suicídio silencioso.

Randy "Carneiro" Robinson é um veterano da luta-livre que, após as glórias do passado, dedica-se aos ringues como uma caricatura de si mesmo, no intuito de entreter o público e ganhar algum dinheiro, refugiando-se de outra batalha, menos sangrenta e nem por isso menos dolorosa, contra a pessoa egoísta e vazia que é. Sua situação é precária: está proibido de entrar em casa, por conta do aluguel não pago; tem de dormir dentro do carro; o único lugar que frequenta é uma boate de striptease, onde estabelece um fiapo de relação com uma dançarina, interpretada por Marisa Tomei.

Já que a quantia que recebe mal dá para se sustentar, decide trabalhar também como carregador num supermercado, ao passo que participa de duelos cada vez mais radicais e penosos, com arames farpados e grampeadores usados na própria carne. Tudo isso para delírio dos espectadores sedentos de show.

Mas não pensem que o filme incute compaixão pelo personagem. Não, a abordagem é muito mais ampla. De fato, trata-se de um homem decadente. Porém, as derrotas são conseqüências de seu jeito de ser. Há um momento na história em que ele até parece reagir. É quando, ao se recuperar de um infarto, procura a dançarina e revela o quanto se sente solitário e desamparado. A mulher, numa demonstração de afeto, sugere que ele procure a filha. Mas não, a tentativa fracassa. O egoísmo e falta de jeito falam mais forte. A vontade de viver não dura muito. Mesmo enfartado, volta a lutar. Ele sabia que ali, naquela arena iluminada e sangrenta, a dor não lhe machucava.

Na última luta do filme, Randy declara seu amor ao público. Deixa claro que as pessoas ali formavam a sua família, e que ele as amava. O boneco sente-se bem diante das crianças que o aplaudem. Um tipo de vida que se alimenta de uma ilusão. E a tristeza de ser entretenimento, de não estar no controle quando o show termina, sob a pífia anestesia dos gritos de: “Golpe final do Carneiro! Golpe final do Carneiro!”, não lhe representa nada. Sim, é verdade, sua expressão facial é de dor e extremo esforço. Porém seus passos quase não vacilam. Não existe arrependimento. Por um instante, olha a janela onde estava a dançarina que, minutos antes, lhe oferecera carinho, ao pedir que não lutasse. Mas a ponte é impossível nesse momento. Resta-lhe aquilo, apenas aquilo.

Poucos dias antes, quando começa a se reconciliar com a filha, de quem estivera afastado por muitos anos, "Carneiro" nos prova que jamais deixará de ser quem é. Saem juntos, vão a Coney Island, combinam de se encontrar no sábado à noite. Ele havia decidido trabalhar somente no supermercado e se aposentar dos ringues. Insiste nisso por dois ou três dias, até que resolve quebrar tudo. Vai ao encontro de amigos lutadores e começa a beber. Encontra uma garota, se droga, faz sexo no banheiro. Muitas horas depois, lembra-se do encontro com a filha. Tarde demais.

Mickey Rourke concede a própria carne ao personagem. É impressionante o tamanho da dor que carrega na face e como seus trejeitos se encaixam à densidade da história. O filme cria a personagem e o ator transforma-o em algo vivo, muito próximo de todos nós. Mickey Rouke injeta no "Carneiro" muito do que o ser humano leva dentro de si quando chega ao momento da vida em que as fugas, mesmo as mais destrutivas, misturam-se ao próprio ser. O galã de minhas primas mais velhas, depois de surrado por longos anos no seu próprio ringue, parece ter voltado para nos dizer: sou um ator monumental! Capaz de vencer o maior dos desafios: lutar pela vida!

sexta-feira, 26 de março de 2010

NO CAMINHO

Quando a rua Olinda me joga na Avenida Amazonas percebo se o trânsito está ou não naqueles dias horríveis. Nesta terça-feira não foi diferente. Até onde meus olhos alcançavam, tudo estava emperrado. O dia se impunha diante de motoristas, passageiros e pedestres. E eu estava a caminho do trabalho, depois de ter acordado um pouco tarde.

Mas não cheguei a me incomodar. Apurei a vista, concentrei-me, e continuei a ler o Zaratustra, livro que me acompanha. Lia sobre a amizade; amor ao próximo; isolamento; busca de si mesmo.

Passados alguns minutos, logo no primeiro ponto do ônibus, um homem de estatura mediana, trajando uma surrada calça jeans e uma camiseta com a imagem de uma santa, aparentando ter quarenta e cinco anos, depois de passar pela catraca do cobrador, levantou a voz: Amigos, estou aqui para compartilhar algo com vocês, sobre minha vida, estou desempregado, tenho duas filhas, e preciso de uma contribuição, qualquer valor que seja: dez centavos, cinqüenta, um real; aqui estão papéis que provam que já trabalhei com carteira assinada, que estou sem renda agora, e que sofro de uma grave doença: epilepsia.

As palavras do homem prejudicaram minha leitura. Mergulhei nos mais diversos pensamentos.

Tenho renda, não tenho epilepsia, não tenho duas filhas - apenas uma, que não mora comigo. No entanto, algo bateu forte na minha cabeça. Foi quando ele disse que estava ali porque não tinha saída. A imagem do túnel e sua meia-luz, da ponte da qual não se pode voltar, são fogos de artifício que estalam em minha mente. Há situações que exigem uma única escolha, nas quais existe uma única possibilidade, ou fazemos o que é necessário ou morremos por conta da inércia. Conforme parecia, este era o caso daquele homem supostamente epilético.

Para que ele não visse meus olhos, e tampouco me cobrasse dinheiro, mantive-os pregados no Zaratustra. O homem passou do meu lado e foi ao fundo do ônibus, enquanto ouvíamos moedas pingarem nas suas mãos.

Depois que ele desceu, fiquei a imaginar se tudo não seria uma grande mentira...De todo jeito, o barulho das moedas e o trânsito intenso da Avenida são incontestáveis.

quinta-feira, 25 de março de 2010

ENFIM


É. Vou adiante...

Alguns meses depois.

Vou escrever. As peças (do quebra-cabeça) se juntam. Assim será melhor.


JIGSAW FALLING INTO PLACE