sexta-feira, 26 de março de 2010

NO CAMINHO

Quando a rua Olinda me joga na Avenida Amazonas percebo se o trânsito está ou não naqueles dias horríveis. Nesta terça-feira não foi diferente. Até onde meus olhos alcançavam, tudo estava emperrado. O dia se impunha diante de motoristas, passageiros e pedestres. E eu estava a caminho do trabalho, depois de ter acordado um pouco tarde.

Mas não cheguei a me incomodar. Apurei a vista, concentrei-me, e continuei a ler o Zaratustra, livro que me acompanha. Lia sobre a amizade; amor ao próximo; isolamento; busca de si mesmo.

Passados alguns minutos, logo no primeiro ponto do ônibus, um homem de estatura mediana, trajando uma surrada calça jeans e uma camiseta com a imagem de uma santa, aparentando ter quarenta e cinco anos, depois de passar pela catraca do cobrador, levantou a voz: Amigos, estou aqui para compartilhar algo com vocês, sobre minha vida, estou desempregado, tenho duas filhas, e preciso de uma contribuição, qualquer valor que seja: dez centavos, cinqüenta, um real; aqui estão papéis que provam que já trabalhei com carteira assinada, que estou sem renda agora, e que sofro de uma grave doença: epilepsia.

As palavras do homem prejudicaram minha leitura. Mergulhei nos mais diversos pensamentos.

Tenho renda, não tenho epilepsia, não tenho duas filhas - apenas uma, que não mora comigo. No entanto, algo bateu forte na minha cabeça. Foi quando ele disse que estava ali porque não tinha saída. A imagem do túnel e sua meia-luz, da ponte da qual não se pode voltar, são fogos de artifício que estalam em minha mente. Há situações que exigem uma única escolha, nas quais existe uma única possibilidade, ou fazemos o que é necessário ou morremos por conta da inércia. Conforme parecia, este era o caso daquele homem supostamente epilético.

Para que ele não visse meus olhos, e tampouco me cobrasse dinheiro, mantive-os pregados no Zaratustra. O homem passou do meu lado e foi ao fundo do ônibus, enquanto ouvíamos moedas pingarem nas suas mãos.

Depois que ele desceu, fiquei a imaginar se tudo não seria uma grande mentira...De todo jeito, o barulho das moedas e o trânsito intenso da Avenida são incontestáveis.

Um comentário:

  1. Na primeira vez que li hoje o final deste texto, me soou incontestável a ironia da "incontestabilidade". Depois me veio o vazio; depois a indiferença. Agora apenas aquela interjeição démodé pode explicar meu sentimento: "Só!..."

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