sexta-feira, 14 de maio de 2010

O PADRE DA LUZ VERMELHA

Na última conversa com padre Nereu, Juju ficou chocada com o que ouviu. Senhora sisuda, casada, funcionária pública, síndica de condomínio, católica praticante, suas decisões tinham de passar pelo crivo da igreja. Esforçava-se por manter tudo em ordem, estivesse no trabalho ou no prédio - localizado num bairro de classe média alta, zona sul de Belo Horizonte, onde vive com o marido há mais de trinta anos.

Com a chegada de três novas moradoras, que assinaram contrato com o dono do apartamento (um senhor bastante rico e respeitado por todos no bairro), a rotina do lugar sofreu sérias alterações.

O barulho nas madrugadas aumentou. Sapatos de salto alto, com seus "toque" "toque" "toque", e ruídos que lembravam grunhidos de animais perturbavam o sono de muita gente. A filha adolescente de uma vizinha afirmou ter visto um homem pelado no quarto das moças. Sem contar que o movimento de táxis, depois das vinte três horas, aumentara bastante por ali.

Com o agravamento da situação, Juju teve de tomar providências. Resolveu dar início a uma investigação
. Foi ao apartamento das novas inquilinas. Atendida pela Renata, moça muito simpática, conversada e educada, foi convidada a entrar. Juju explicou que precisava do telefone de todos, para o caso de alguma emergência. Registou o número da menina, bem como de suas amigas, num caderno de notas. Soube que estudavam numa faculdade particular. E que eram amigas íntimas do locador.

Na casa do sogro de Juju, havia uma pilha de jornais. Para confirmar o número de Renata numa das seções do periódico, catou algumas páginas e levou-as para casa. Depois de quase uma semana de trabalho, quando o marido já reclamava da falta de assistência, Juju vibrou excitada ao reconhecer o número que anotara no caderno: Para você que não abre mão de uma acompanhante discreta, bonita e charmosa, estudante universitária, disposta a realizar seus desejos mais secretos, ligue para mim. Sigilo absoluto em local próprio, num dos bairros mais nobres da cidade.

A missão estava cumprida. Juju agora tinha elementos para agir. Antes, porém, seria preciso ir ao Padre Nereu. Há vinte anos que o conhecia, confiava em seus conselhos, apesar de achá-los às vezes incomuns. Mas sempre que os seguia, o resultado era ótimo. E por que haveria de ser diferente agora?

Revoltada com o que ouviu do padre, Juju decidiu agir por conta própria. Procurou o locador das meninas. Contou tudo que descobrira e afirmou, fundamentada no Estatuto do Condomínio, que tais posturas são proibidas. O homem bem que tentou defender as moças, contudo ao ser desafiado a ligar para uma delas, e depois de pensar nos riscos de ser descoberto, cedeu aos argumentos de Juju. Pediu apenas que aguardasse quinze dias para que o imóvel fosse desocupado.

Passados nove meses, no batizado da filha de uma vizinha, cujo pai era desconhecido, Juju se surpreendeu ao perceber o padre Nereu na cerimônia. Foi inevitável lembrar: é, minha filha, o jeito é pedir pras meninas, pelo menos, colocarem uma luz vermelha na porta.

Um comentário: